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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Laços únicos

Descer a Avenida da Liberdade, inspira. Sair do Marquês em direcção aos Restauradores é pisar a calçada da cultura viva. A minha bússola sempre apontou para o coliseu. Aprendi com o meu pai que era o norte que devia seguir, mas neste caso, era para Sul que se estreitava o meu caminho. A esfera azul daquele tecto foi tantas vezes o meu céu, quando olhava para cima em contemplação, num gesto de agradecimento por estar naquela sala de grandes concertos. No final de cada um, descer a rampa no sentido do Politeama em mais uma noite de espectáculo, era ressacar da bebedeira de inspiração a que tinha sido submetido. A música é tão melhor quando se enquadra num espaço que a recebe com vontade, onde as paredes se alimentam de décibeis e as pessoas se alienam do quotidiano. Hoje, a mesma bússola, norteia-me com frequência para a mesma Avenida, mas para o outro lado da estrada. Hoje, sou magneticamente levado para um lugar onde se respira arte sob as mais diversas formas - o cinema São Jorge.

Os quase 35 graus do final de tarde tropical não impediram que saísse na direcção do cinema. No metro, olhava as pessoas cansadas do dia de trabalho. Umas davam o último sprint para apanharem a carroagem e não perderem 10 minutos do seu tempo. Outras, resignavam-se à evidência de que todos os dias é assim, e que os 10 minutos se perdem, porque têm de se perder. As caras são mais simpáticas à tarde do que pela manhã. O sair para o trabalho contrasta com o sair para casa. Nunca gostei de regras, de correr sem apreciar os minutos, de esperar sem objectivo. Agarrado à evidência de que para mim o final de dia era diferente, limitei-me a observar que estava na rota oposta. Fui em busca de um espaço íntimo sem ser o meu, mas mais do que isso, fui em busca de música.

Na sala do cinema as luzes roxas conferiam o ambiente intímo que me haviam prometido. Do palco já se ouvia aquela voz rouca que me acompanhou em tantas viagens. A voz, em parelha com a semi-acústica, invadia o educado silêncio do público. Se as ondas sonoras são também capazes de hipnotizar, diria que naquele momento estava perante 70 cabeças entregues às palavras de Tiago Bettencourt. Sozinho em palco, enfrentava os conhecedores do seu projecto como numa prova descontraída de que se pode ir para a guerra sem exército. A melodia acalmava-me e ao mesmo tempo surpreendia-me. Melhor do que ir para um concerto com um pouco de expectativa, é ir sem expectativa nenhuma. Bettencourt saltava da viola para o piano com a mesma facilidade de quem salta da areia para o mar de Varadero e só ignorando o barulho da minha respiração, conseguia absorver aquele momento na sua pleinitude. As melodias arrepiavam quando conjugadas com as palavras, mas que artista! Não chegava a riqueza dos seus temas e trazia a palco um pouco de Bob Dylan, sentando-se num piano que deveria ter a idade do consagrado artista. Mais palmas. Mantendo sempre uma ligação única com aqueles que tinham saído mais cedo para ali estarem, fazia dos nossos assobios as notas de um seu tema, oferecendo-nos alguns segundos para um rasgo criativo. O tempo, esse, avançava sem que o artista o controlasse. Perguntava a quantas ia, e da mesa de som alguém lhe gritava "já passaram 35 minutos". Todos nós queriamos que não tivesse passado nada. Vi em Bettencourt a alegria de quem faz aquilo que gosta, mas naquele dia vi algo mais. Tiago, tocava apenas o que lhe apetecia, sem pressão, entregue a si mesmo. Era genuíno. E não é assim que tem de ser? Música atrás de música, conversa atrás de conversa, um artista português guiava um momento, e eu sentia-me priveligiado por ali estar e ao mesmo tempo insatisfeito por não poder mostrá-lo ao mundo. Quando vemos um jogador português brilhar lá fora, dizemos que é nosso. Eu, orgulhoso, senti Tiago Bettencourt como nosso! Espero que possa brilhar pelo mundo, nem que seja apenas pelo da lusofonia, pois as suas palavras merecem ser compreendidas.

Ontem, felizmente para mim e para aquelas 70 pessoas, ouvimos uma versão única de "Laços". Hoje, felizmente para mim, invadi-me de prazer ao cantá-la no metro. Mas sabem, cantei para dentro, pois não tenho talento suficiente para fazer daquela carruagem, o meu palco íntimo.

terça-feira, 24 de maio de 2011

O verdadeiro "hino à alegria"

(a todos os que estiveram este Domingo no Jardim da Estrela)

Custou a acreditar que estava a acontecer. Para mim, era um domingo como muitos outros, onde por entre a panóplia de espécies de árvores raiava um Sol tipicamente lisboeta. O clima permitia um passeio ameno e uma confortável conversa na relva. Se a cor dos nossos dias é responsável pelo nosso lado emocional, acredito que era o dia perfeito para se ser feliz. Era também de música que se alimentava a tarde. Música excelentemente escolhida, música com um sabor contagiante que nos fazia reviver tempos, pessoas, locais e momentos. Ao sabor da música outros sabores se juntavam. Estes eram degustados através dos cálices de vinho, dos copos de cerveja fresca com tremoço e dos sumos refrescantes. Todos os ingredientes compunham um espaço único da nossa cidade. Todos os ingredientes enriqueciam o magnífico Jardim da Estrela. Misturavam-se pessoas de todos os estilos, de todas as idades, pessoas bonitas! A beleza de cada um está única e simplesmente no seu humilde sorriso. E quantos sorrisos perfilavam! Passeavam as miúdas de tops descaídos que deitavam seus ombros ao sol. Passeavam os pais de mangas curtas que seguravam nos braços, lindos bébes. Passeavam jovens que viam no uso dos chinelos um chamamento de Verão e crianças que corriam de cara pintada numa metáfora à felicidade carnavalesca. Ao som da música e ao brilho da luz, todos os que ali estavam, com a sua multiplicidade de vidas, de responsabilidades, de objectivos, repentinamente se uniram numa enérgica dança de libertação.

Era uma sede de viver a vida, de contemplar a natureza, de sentir a harmonia. O coreto rapidamente se transformou numa fogueira, onde os acordes do que se ouvia atraíam mais e mais pessoas para seu redor. Era incrível aquele mar coreográfico! Os sentados passaram a levantados. Os envergonhados a extrovertidos. Os grupos uniram-se numa intersecção perfeita. E num ápice, dezenas e dezenas de pessoas dançavam sem complexos, saltando como pássaros que voam e não querem aterrar. No ar bolas insufláveis descreviam órbitas aleatórias por cima das cabeças daquele sistema vibrante de pessoas. Uma música, duas músicas, três músicas, o êxtase da vida continuava e aquele universo ficava cada vez maior. Tocava “Empire State of Mind” e a multidão vibrava como que dando aos de Central Park uma lição. Se naquele momento uma letra Lisboeta entrasse, acredito que as lágrimas, sem receio, fossem solidárias com as palavras. Invadi-me de orgulho pelo que via, de comoção por ali estar e poder partilhar sem ter de contar as horas. Naquele momento era impossível contrariar a felicidade daquela gente.

O mais bonito de tudo foi perceber que na explosão de ritmo e alegria, estavam provavelmente alguns que levam uma vida monótona, alguns que sofrem com a solidão do desemprego, alguns que recentemente podem ter perdido alguém, e muitos que sonham num país que todos os dias é apelidado de doente. O mais bonito de tudo foi perceber que ali nada disso existia! Num lugar público com um espectáculo simples, vimos uma festa sem aniversariante, uma celebração sem motivo aparente, a não ser pela única e simples razão de estarmos a viver.

Se um cenário perfeito deve ser pintado, acredito que todos os pintores do mundo gostariam de ali ter estado. No Domingo, o cair da noite no Jardim da Estrela, foi um “hino à alegria”.

P.S.- A todos os que lá estiveram, um muito obrigado por me contagiarem, um muito obrigado por me terem permitido ver Lisboa, como nunca a vi.

(este é o primeiro de vários textos de momentos que quero partilhar. Sejam felizes!)