Descer a Avenida da Liberdade, inspira. Sair do Marquês em direcção aos Restauradores é pisar a calçada da cultura viva. A minha bússola sempre apontou para o coliseu. Aprendi com o meu pai que era o norte que devia seguir, mas neste caso, era para Sul que se estreitava o meu caminho. A esfera azul daquele tecto foi tantas vezes o meu céu, quando olhava para cima em contemplação, num gesto de agradecimento por estar naquela sala de grandes concertos. No final de cada um, descer a rampa no sentido do Politeama em mais uma noite de espectáculo, era ressacar da bebedeira de inspiração a que tinha sido submetido. A música é tão melhor quando se enquadra num espaço que a recebe com vontade, onde as paredes se alimentam de décibeis e as pessoas se alienam do quotidiano. Hoje, a mesma bússola, norteia-me com frequência para a mesma Avenida, mas para o outro lado da estrada. Hoje, sou magneticamente levado para um lugar onde se respira arte sob as mais diversas formas - o cinema São Jorge.
Os quase 35 graus do final de tarde tropical não impediram que saísse na direcção do cinema. No metro, olhava as pessoas cansadas do dia de trabalho. Umas davam o último sprint para apanharem a carroagem e não perderem 10 minutos do seu tempo. Outras, resignavam-se à evidência de que todos os dias é assim, e que os 10 minutos se perdem, porque têm de se perder. As caras são mais simpáticas à tarde do que pela manhã. O sair para o trabalho contrasta com o sair para casa. Nunca gostei de regras, de correr sem apreciar os minutos, de esperar sem objectivo. Agarrado à evidência de que para mim o final de dia era diferente, limitei-me a observar que estava na rota oposta. Fui em busca de um espaço íntimo sem ser o meu, mas mais do que isso, fui em busca de música.
Na sala do cinema as luzes roxas conferiam o ambiente intímo que me haviam prometido. Do palco já se ouvia aquela voz rouca que me acompanhou em tantas viagens. A voz, em parelha com a semi-acústica, invadia o educado silêncio do público. Se as ondas sonoras são também capazes de hipnotizar, diria que naquele momento estava perante 70 cabeças entregues às palavras de Tiago Bettencourt. Sozinho em palco, enfrentava os conhecedores do seu projecto como numa prova descontraída de que se pode ir para a guerra sem exército. A melodia acalmava-me e ao mesmo tempo surpreendia-me. Melhor do que ir para um concerto com um pouco de expectativa, é ir sem expectativa nenhuma. Bettencourt saltava da viola para o piano com a mesma facilidade de quem salta da areia para o mar de Varadero e só ignorando o barulho da minha respiração, conseguia absorver aquele momento na sua pleinitude. As melodias arrepiavam quando conjugadas com as palavras, mas que artista! Não chegava a riqueza dos seus temas e trazia a palco um pouco de Bob Dylan, sentando-se num piano que deveria ter a idade do consagrado artista. Mais palmas. Mantendo sempre uma ligação única com aqueles que tinham saído mais cedo para ali estarem, fazia dos nossos assobios as notas de um seu tema, oferecendo-nos alguns segundos para um rasgo criativo. O tempo, esse, avançava sem que o artista o controlasse. Perguntava a quantas ia, e da mesa de som alguém lhe gritava "já passaram 35 minutos". Todos nós queriamos que não tivesse passado nada. Vi em Bettencourt a alegria de quem faz aquilo que gosta, mas naquele dia vi algo mais. Tiago, tocava apenas o que lhe apetecia, sem pressão, entregue a si mesmo. Era genuíno. E não é assim que tem de ser? Música atrás de música, conversa atrás de conversa, um artista português guiava um momento, e eu sentia-me priveligiado por ali estar e ao mesmo tempo insatisfeito por não poder mostrá-lo ao mundo. Quando vemos um jogador português brilhar lá fora, dizemos que é nosso. Eu, orgulhoso, senti Tiago Bettencourt como nosso! Espero que possa brilhar pelo mundo, nem que seja apenas pelo da lusofonia, pois as suas palavras merecem ser compreendidas.
Ontem, felizmente para mim e para aquelas 70 pessoas, ouvimos uma versão única de "Laços". Hoje, felizmente para mim, invadi-me de prazer ao cantá-la no metro. Mas sabem, cantei para dentro, pois não tenho talento suficiente para fazer daquela carruagem, o meu palco íntimo.
Os quase 35 graus do final de tarde tropical não impediram que saísse na direcção do cinema. No metro, olhava as pessoas cansadas do dia de trabalho. Umas davam o último sprint para apanharem a carroagem e não perderem 10 minutos do seu tempo. Outras, resignavam-se à evidência de que todos os dias é assim, e que os 10 minutos se perdem, porque têm de se perder. As caras são mais simpáticas à tarde do que pela manhã. O sair para o trabalho contrasta com o sair para casa. Nunca gostei de regras, de correr sem apreciar os minutos, de esperar sem objectivo. Agarrado à evidência de que para mim o final de dia era diferente, limitei-me a observar que estava na rota oposta. Fui em busca de um espaço íntimo sem ser o meu, mas mais do que isso, fui em busca de música.
Na sala do cinema as luzes roxas conferiam o ambiente intímo que me haviam prometido. Do palco já se ouvia aquela voz rouca que me acompanhou em tantas viagens. A voz, em parelha com a semi-acústica, invadia o educado silêncio do público. Se as ondas sonoras são também capazes de hipnotizar, diria que naquele momento estava perante 70 cabeças entregues às palavras de Tiago Bettencourt. Sozinho em palco, enfrentava os conhecedores do seu projecto como numa prova descontraída de que se pode ir para a guerra sem exército. A melodia acalmava-me e ao mesmo tempo surpreendia-me. Melhor do que ir para um concerto com um pouco de expectativa, é ir sem expectativa nenhuma. Bettencourt saltava da viola para o piano com a mesma facilidade de quem salta da areia para o mar de Varadero e só ignorando o barulho da minha respiração, conseguia absorver aquele momento na sua pleinitude. As melodias arrepiavam quando conjugadas com as palavras, mas que artista! Não chegava a riqueza dos seus temas e trazia a palco um pouco de Bob Dylan, sentando-se num piano que deveria ter a idade do consagrado artista. Mais palmas. Mantendo sempre uma ligação única com aqueles que tinham saído mais cedo para ali estarem, fazia dos nossos assobios as notas de um seu tema, oferecendo-nos alguns segundos para um rasgo criativo. O tempo, esse, avançava sem que o artista o controlasse. Perguntava a quantas ia, e da mesa de som alguém lhe gritava "já passaram 35 minutos". Todos nós queriamos que não tivesse passado nada. Vi em Bettencourt a alegria de quem faz aquilo que gosta, mas naquele dia vi algo mais. Tiago, tocava apenas o que lhe apetecia, sem pressão, entregue a si mesmo. Era genuíno. E não é assim que tem de ser? Música atrás de música, conversa atrás de conversa, um artista português guiava um momento, e eu sentia-me priveligiado por ali estar e ao mesmo tempo insatisfeito por não poder mostrá-lo ao mundo. Quando vemos um jogador português brilhar lá fora, dizemos que é nosso. Eu, orgulhoso, senti Tiago Bettencourt como nosso! Espero que possa brilhar pelo mundo, nem que seja apenas pelo da lusofonia, pois as suas palavras merecem ser compreendidas.
Ontem, felizmente para mim e para aquelas 70 pessoas, ouvimos uma versão única de "Laços". Hoje, felizmente para mim, invadi-me de prazer ao cantá-la no metro. Mas sabem, cantei para dentro, pois não tenho talento suficiente para fazer daquela carruagem, o meu palco íntimo.
